Chamada Proibida


Era quase meia-noite quando o celular de Ana vibrou no escuro do quarto. A tela iluminou-se com o nome dele: "Pedro – Meu Safado". Ela mordeu os lábios, sentindo o coração acelerar. Sabia exatamente o que aquela ligação significava.

Atendeu, deixando a voz sair num sussurro rouco:
— "Oi, amor… Tá com saudade?"

Do outro lado, a respiração dele já estava pesada.
— "Saudade? Eu tô é doido pra enfiar essa pica na sua boca até você engasgar. Você faz ideia do que você me faz sentir?"

O quarto estava mergulhado em tons de vinho e âmbar, como se a luz do abajur se dissolvesse em conhaque. Do lado de fora, Luanda respirava quente e húmida, as luzes dos prédios altos tremeluzindo como brasas numa noite sem vento. Ela esticou o braço até o criado-mudo, onde o telefone vibrava—uma chamada sem foto, só um número que ela sabia de cor.

Atendeu sem dizer "alô". Do outro lado, o silêncio era denso, só a respiração dele, lenta e áspera, como se estivesse segurando um cigarro entre os lábios.

— Estás a usar o vestido vermelho, não estás? — a voz dele era um arrasto de seda e fumo, tão familiar que ela sentiu um frêmito na base da espinha.

Ela sorriu, levando os dedos ao decote do vestido—aquele mesmo, o de cetim que agarrava aos seus quadris como uma segunda pele.

— Como sabes? — provocou, já sabendo a resposta.

— Porque é o que vestes sempre que queres que eu me lembre de ti.

Ela soltou uma risada baixa, afundando-se na cama. Fazia três semanas desde a última vez que se viram, num hotel em Lisboa, quando ele ainda tinha um anel no dedo e ela ainda fingia que não se importava. Agora, só restavam chamadas roubadas entre fuso horários e desculpas esfarrapadas.

— Sinto falta de ti — ela confessou, e a frase saiu mais crua do que pretendia.

Do outro lado, ele hesitou. Ela imaginou-o na varanda do apartamento dele, olhando o Tejo escuro, com a esposa dormindo no quarto ao lado.

— Queres que eu te diga o que faria se estivesse aí? — a voz dele baixou, assumindo aquele tom que a fazia derreter—um tom que não usava com mais ninguém.

Ela puxou o lençol, sentindo o suor nas têmporas.

— Diz-me. Mas devagar. Hoje não tenho pressa.

E então ele começou. Palavras como dedos, descrições como beijos. Ela fechou os olhos e deixou-se levar—as mãos imaginárias dele deslizando por suas coxas, a boca quente no seu pescoço, o sussurro de promessas que ambos sabiam que não poderiam cumprir.

— Toca em ti... como se fossem as minhas mãos.

Ela obedeceu, com um gemido contido. Era perigoso, era proibido, era a única coisa que a fazia sentir viva.

Quando a chamada terminou, ambos ficaram em silêncio, só o som da respiração deles ecoando na linha, como um segredo compartilhado.

Na manhã seguinte, ela acordou com o telefone ainda colado à palma da mão. A luz do sol entrava em frestas pelas persianas, cortando o quarto em fatias de realidade. Uma notificação piscou na tela:

"Hoje à noite, mesma hora. Desta vez, fujo de tudo para te ter."

Ela leu a mensagem três vezes antes de sorrir. Sabia que era só mais uma mentira—ele nunca deixaria a vida confortável que construíra. Mas, por enquanto, as mentiras dele eram o mais perto do céu que ela chegaria.

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